Na minha correria diária de aluno de Ciência da Computação na UFPE (experimenta!), tenho tempo regradíssimo para realizar certas atividades. Isso deve explicar a esporadicidade das postagens neste diário virtual. Inclusive algumas tarefas, como a leitura do correio eletrônico, devem ser racionalizadas, o que me leva a dar preferência à leitura do meu email acadêmico. Vez por outra é que me lembro de ler mensagens da conta do hotmail, por exemplo.
O que, cá pra nós, dá uma alavancada interessante na minha produtividade, já que esse sistema de webmail é feito pra passar o tempo. Não bastasse levar uma boa pisa em termos de funcionalidade do senhor Gmail, não aceitar encaminhamento para outra conta, não poder ser acessado por POP/SMTP (sistema geralmente utilizado por clientes como o Thunderbird ou o Outlook para se comunicar com o servidor de email), ter uma interface altamente antifuncional, ainda é o “email do MSN”. “Email do MSN”? “Como assim”? Explica-se:
O popularíssimo MSN Messenger é um excelente laboratório de cultura de trotes virtuais (ou hoaxes, do inglês, termo mais utilizado) justamente por ser utilizado por mais de 30,5 milhões de brasileiros (números do ano de 2007). Não bastasse ser popular, é uma das primeiras formas de contato dos recém-inclusos digitalmente, junto com o Orkut. A característica quantitativa (grande número de usuários) e qualitativa (muitos usuários novatos) desse meio dá a ele um alto poder de propagação de spams, hoaxes, phishings, entre outras formas indesejadas de correspondência eletrônica.
E foi justamente numa dessas improdutivas idas à caixa de entrada do Hotmail que eu me deparei com alguns hoaxes interessantes. A maioria absoluta era de cunho religioso. Interessante, não? Eu diria óbvio, já que os fenômenos religiosos estão intimamente ligados com lendas, crendices e similares.
Os religiosos falavam o de sempre: notícias de milagres, provas “científicas” de fenômenos bíblicos, alerta sobre músicas diabólicas, mensagens melosas de deus para sua vida e o que mais me chamou a atenção: uma petição contra o lançamento do novo filme do Jesus gay (hã?). Isso mesmo. Um suposto filme a ser lançado, que retrataria Jesus e seus discípulos como homossexuais. É sobre este famoso trote (comprovadamente falso) que pretendo falar nesta primeira postagem sobre o assunto.
A mensagem me foi enviada com o título “filme desrespeitoso”. Achei à primeira vista já ter recebido essa mensagem antes. Resolvi conferir e ver do que se tratava. Depois de rolar pelos cerca de quarenta endereços de email explícitos no cabeçalho (um prato cheio para os spammers), aos quais foi encaminhada a mesma mensagem, atentei para o conteúdo, que reproduzo abaixo tal qual está na mensagem:
O filme intitulado 'Corpus Christis' (O Corpo de Cristo),que vai sair em
breve na América do Norte, mostra Jesus mantendo relações
homossexuais com os seus discípulos. A versão teatral já se
apresentou.
É uma paródia repugnante de Jesus. Uma ação concentrada da nossa
parte poderá mudar as coisas.
Você aceita juntar o seu nome no fim da lista? Em caso afirmativo,
poderemos evitar a projeção desse filme, que não traz nada de
positivo.
PRECISAMOS DE MUITOS NOMES em adesão a esta proposta
'Quem me confessar diante dos Homens, Eu o confessarei Diante de meu
Pai, que está nos Céus.'(Mt 10.32)
'Mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante
de meu Pai que está nos céus.'(Mt 10.33)
POR FAVOR: Não faça 'ENCAMINHAR' Desta mensagem, mas sim:
SELECIONE TUDO, COPIE (Ctrl+C) e COLE (Ctrl+V) numa mensagem Nova.
Depois, acrescente o seu nome no fim da lista e envie-o a todos os seus
amigos. São apenas 2 minutos para algo tão importante.
Quando a lista chegar aos 500 nomes, envie-a a:
[endereço de email, provavelmente falso]
Isso sensibilizaria qualquer cristão ou simpatizante a assinar a petição sem muito hesitar. Confesso que minha sensibilidade a esse tipo de coisa já não anda tão em alta. Mas minha curiosidade, esta sim, está sempre alerta! E assim fui logo levado ao repositório-mor de toda a informação cibernética, o onisciente Google. Pesquisei por “Corpus Christi” (sem a letra esse no final, o que parece ser o correto) e encontrei alguns resultados relevantes, inclusive um artigo da Wikipedia. Passou pela minha cabeça dar crédito ao conteúdo da mensagem. Não para assinar a petição censuradora, mas pra fazer o download do filme, se estivesse disponível em alguma rede de compartilhamento. Foi aí que notei que em quase todos os resultados estava presente a palavra play (peça, em inglês). Parecia que tudo corroborava o conteúdo da petição no que diz respeito à “versão teatral” da trama, mas, não satisfeito em saber que a peça tinha sido escrita e produzida, ainda queria o filme.
Ó, mórbida curiosidade motora das descobertas! Motivei-me a procurar algo mais e encontrei um... DVD de título Corpus Christi à venda! Agora, sim, me vi obrigado a aceitar que a petição, se não justa, era pelo menos embasada. Certo? Errado! Refinei minha busca pelo título acompanhado da palavra mágica: hoax! Et voilá! Artigos completos sobre a versão em inglês do mesmo trote, que — pasmem — circula em suas várias formas desde o fim da década de 1970.
O DVD encontrado à venda online? Ah, sim. Era um documentário sobre a figura histórica de Jesus e não uma versão cinematográfica da referida peça teatral do escritor Terrence McNally, a qual estreou no ano de 1998 nos Estados Unidos. Uma adaptação para o cinema nunca teria sido sequer anunciada. Embora os títulos sejam iguais, o conteúdo do documentário é essencialmente diferente do da peça.
Imagine agora quantos endereços de email no cabeçalho este trote coletaria quando o qüingentésimo assinante colocar seu nome e reencaminhar a mensagem? Você forneceria o endereço da sua residência se a ela chegasse uma correspondência desse tipo? Não, pois você pensaria na sua privacidade e na sua segurança em primeiro lugar. No mundo virtual os conceitos de privacidade e segurança — apesar do Orkut — também existem. Você vai pensar duas vezes de agora em diante, não vai?
Muito bem. Descoberto o mito, agora tenho um trote a menos pra cair, sinto minha consciência um hoax mais leve e vejo como é fácil mexer com as emoções quando o assunto é religião. É certo que os apelos emotivos ajudam a nos demover da nossa apatia diária, mas o perigo reside em nos acostumarmos a agir pela emoção ao invés de procurar a verdade nos fatos.
Continuarei a falar sobre outros hoaxes em postagens vindouras. Até mais!