
Espantei-me quando vi que não derramara sequer uma lágrima quando da morte do meu pai. Aliás, pelo contrário. Respirei aquela atmosfera de agonia como a trágica atmosfera corriqueira que nos circunda; esta que não percebemos por simples indiferença.
Senti-me abalado, confesso, que não sou tal qual uma pedra (quem sabe, a pedra sofre e tão somente não demonstra?). Recebi o silencio como notícia. Já estava acostumado. Silêncio dele, silêncio dos médicos, meu próprio silêncio em respeito aos outros. Alguém ao meu lado parecia não esperar tal acontecimento. Eu já sabia, mas de súbito vi-me incapaz de completar verbalmente uma sentença que fosse. Entrei em choque por dez minutos, estimo eu. E foi só isso.
Para mim, que não tenho religião, não foi algo tão complexo. Parecia haver um consolo pré-determinado. Na verdade, não acreditei em nada que vi em relação à sua morte.
Ver no necrotério aquele corpo antropomorfo enfaixado não evocou nem por um instante a figura do meu pai. Meu pai era esperto. Chato por demais... Enfim. Chore por ele quem quiser, mas meu pai é ser, é consciência e aquele corpo não tinha consciência. Não era, portanto, meu pai.
A morte, pra quem vive, é o aprendizado mais eficiente que conheço. Nos faz observar tudo de um modo diferente. Percebi que meu pai não morreu. Sua consciência não foi embora por completo. Aprendi muito com ele. Muito mais do que ele me ensinou. Assim, eu sou uma parte dele, querendo ou não. Ademais, você não é menos você se doa sangue. O presidente Lula não é menos humano porque tem um dedo a menos. Meu pai não é menos humano por ter pedido seu corpo; o mais importante, aquilo que nos torna humanos, ficou e está num corpo vivo e bulindo. A partir desta reflexão entendi por que não chorei. Ele também não choraria na minha frente.
Senti-me abalado, confesso, que não sou tal qual uma pedra (quem sabe, a pedra sofre e tão somente não demonstra?). Recebi o silencio como notícia. Já estava acostumado. Silêncio dele, silêncio dos médicos, meu próprio silêncio em respeito aos outros. Alguém ao meu lado parecia não esperar tal acontecimento. Eu já sabia, mas de súbito vi-me incapaz de completar verbalmente uma sentença que fosse. Entrei em choque por dez minutos, estimo eu. E foi só isso.
Para mim, que não tenho religião, não foi algo tão complexo. Parecia haver um consolo pré-determinado. Na verdade, não acreditei em nada que vi em relação à sua morte.
“Manoel Bezerra de Albuquerque (...) óbito: 13/08/2009, 08h00min”Oito horas? Que oito horas que nada! Ele já tinha morrido já havia mais tempo. Antes de declarado o óbito, era apenas um aglomerado biologicamente funcional no leito de uma UTI. Já estava por um fio aquele conjunto precariamente organizado de reações químicas. E chamamos isso de vida?
Ver no necrotério aquele corpo antropomorfo enfaixado não evocou nem por um instante a figura do meu pai. Meu pai era esperto. Chato por demais... Enfim. Chore por ele quem quiser, mas meu pai é ser, é consciência e aquele corpo não tinha consciência. Não era, portanto, meu pai.
“Descanse em paz”“Descanse em paz”, uma porra! A quem querem enganar? Por acaso ele sente que descansa? Ele pode gozar dessa “paz”? Não! E isso não serviria de consolo pra mim. Guarde seus pêsames ingênuos (cínicos?) para outra gente. “Eu quero é botar meu bloco na rua!”
A morte, pra quem vive, é o aprendizado mais eficiente que conheço. Nos faz observar tudo de um modo diferente. Percebi que meu pai não morreu. Sua consciência não foi embora por completo. Aprendi muito com ele. Muito mais do que ele me ensinou. Assim, eu sou uma parte dele, querendo ou não. Ademais, você não é menos você se doa sangue. O presidente Lula não é menos humano porque tem um dedo a menos. Meu pai não é menos humano por ter pedido seu corpo; o mais importante, aquilo que nos torna humanos, ficou e está num corpo vivo e bulindo. A partir desta reflexão entendi por que não chorei. Ele também não choraria na minha frente.
1 pitacos:
Nuss vei...
Mas que bom que você está encarando da melhor forma possível.
Não está sendo frio, só fazendo jus à memória, o ser ser-humano, a consciência, de seu pai.
Parabéns
Fez bem melhor que eu. Quando minha vó morreu parece que resolvi simplesmente apagar.
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