Mas tu é quem?

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Jovem, estudante de Ciência da Computação na UFPE. Tem sede de conhecer e de ser conhecido pelas suas idéias. Esqueça a exatidão e o método; venho mostrar minha cara, minha música, minha poesia, meu âmago escancarado e arreganhado.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O problema em ser você mesmo

Descobri ter um problema grave. Gravíssimo. Sou eu mesmo. E você me pergunta de imediato: que tem de errado em ser você mesmo? E eu retruco. Eu não posso ser eu mesmo. Tenho que ser todo mundo mesmo.

Pra não ficar só na elucubração, me explico agora. Sou negro, franzino e de visual não convencional. Digo que faria muito sucesso como personagem de Hair ou se estivesse vivendo no começo dos anos oitenta (de onde tiro meus principais ídolos; isso explica alguma coisa).



Mas não. Sou uma presa perfeita para a hostilidade e a covardia.

Meu visual diferente e descompromissado com qualquer estilo chama atenção. Descobri ser um perigo.



Na última e mais grave manifestação dessa covardia, estava de caminho para visitar uma grande amiga minha, quando decidi pegar uma rua de uma comunidade vizinha à dela pra não ir pelo caminho de barro. Evitei o barro, mas me imergi na lama. Havia uma pequena aglomeração de pessoas. Deviam estar todas embriagadas (provavelmente não) aproveitando seu domingo ao som da música do momento.

Quando passei na ida, eles não fizeram cerimônia em comentar sobre o meu cabelo despenteado e de volume avantajado. Até aí tudo bem. Alguns reagem assim com a surpresa e/ou a euforia. E segui em frente sem olhar pra outra direção que não para a frente, como sempre faço. Chegando à casa da amiga, vi que não havia ninguém em casa. Que pena. Pena maior, contudo, foi a que recebi pela decisão que tomei.

Pensei em tomar o caminho do barro (que não estava tão lamacento assim) para evitar cruzar com aquele tipo de gente, mas argumentei que devia retornar pelo mesmo caminho justamente pelo mesmo motivo. A verdade é que eu não gosto de me esconder de ninguém por medo de me discriminarem. Se não, eu nem andava de metrô todo dia. E retornei pelas mesmas vielas.

Qual não foi a minha surpresa ao passar perto daquela aglomeração! Fui recebido com as mesmos comentários de sempre, mas do nada vejo um indivíduo acender uma bomba (daquelas de São João de potência média) e jogar na minha direção. Bem no meu pé, quando eu desviei como se estivesse sendo surpreendido por um monte de bosta no chão.

Os comentários ainda continuaram e eu ouvi um cínico "foi mal" vindo da aglomeração, que já ficava para trás. Olhei de volta... olhei... e continuei. E foi isso.

A uma manifestação desse tipo, numa escola, se dá o nome de Bullying. Intimidação do mais forte pelo mais fraco; do grupo contra o indivíduo; do maior contra o menor. E fora da escola? Tem nome?

O episódio me deixou mais reflexivo do que furioso ou mesmo atemorizado. O que leva pessoas fisicamente adultas a se comportar desse jeito, hostilizando uma pessoa fisicamente desavantajada, pacífica e desconhecida? O diferente pode causar ódio? Por quê? Eu ponho em xeque as convicções que eles têm? Ou foi apenas uma diversão instantânea inconsequente que eles arranjaram em meio à frustrante situação em que se situam? Ainda agora me ponho a pensar.

Esse tipo de manifestação, me disseram uma vez, não deveria me mobilizar tanto. Mas a questão pode ser sim aprofundada e se refletirmos sobre essa pequena questão poderemos tirar algumas conclusões mais gerais sobre o comportamento do grupo frente a uma ameaça aos seus costumes estabelecidos.

Eu seguirei muitas e muitas vezes pelo mesmo caminho, procurando a resposta para essas e outras perguntas (mais complexas do que parecem) ou apenas pensando numa boa conversa com a minha amiga.

1 pitacos:

Lw1Z - AkA Luiz Afonso disse...

Isso é repugnante.

Só tenho a parabenizá-lo pela coragem e ousadia de continuar seguindo seu caminho e sendo você mesmo.
Não desista.

Vi esta matéria hoje:
http://tiny.cc/HkSns