Não sou cão ingrato. Não. Reconheço que os cuidados da madame eram os melhores que se poderiam dar ao cachorro. Comia bem, dormia bem, brincava, esbaldar. Vida de fidalgo, de fato.
Por que abandonei os cuidados de Mir? Ainda não sei direito, mas de uma coisa tenho certeza: não me arrependo do que fiz.
Aqui longe ninguém me amparou. Não trago coleira no pescoço, mas sou um cão muito honesto, honestamente falando. Mas coleira é coleira; se você não tem, não te julgam, mas te condenam sumariamente. Meu pêlo cresce e cresce sem que seja aparado. Cresce. "Com tanto pêlo, de boa família não provém. Cruzes!" Pois que provenho. Sou um cão que sabe ler e escrever. Tenho educação suficiente pra redigir uma carta.
Tenho sonhos ainda. Sonho viajar com os amigos, nadar livre por um rio, de água fresca. Ser alguém. Alguém que não se arrependeu de viver mesquinhamente a metade, ainda que morrendo de velhice. Viveria só a metade boa. Sem frustrações, sem dilemas. Decidi entrar no livre comércio da vida, onde se negocia a liberdade com a responsabilidade. Digo que com a madame Mir nunca seria pleno.
Dói a solidão. Dói sim. Mas sei que quando não só mais estiver, me farei rodeado de cães honestos como eu. A plenitude não tarda a chegar.
1 pitacos:
Passei por aqui...
Falta-me somente um tiquinho de tempo pra apreciação do blog, pastel .(?!?!?)
Eu volto.
:D
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